Amar ou Odiar


Amar ou odiar: ou tudo ou nada!
O meio termo é que não pode ser
A alma tem d’estar sobressaltada
P’ra o nosso barro se sentir viver.

Não é uma cruz a que não for pesada,
Metade dum prazer não é um prazer;
E quem quiser a alma sossegada
Fuja do mundo e deixe-se morrer.

Vive-se tanto mais quanto se sente;
Todo o valor está no que sofremos…
Que nenhum homem seja indiferente!

Amemos muito, como odiamos já:
A verdade está sempre nos extremos,
Porque é no sentimento que ela está.

Fausto Guedes Teixeira

Derrota


resta-nos ao menos a alegria das pequenas
virtudes a inflexão casta nos bons-dias
um perdão desnecessário e desapego
fingido quando a bola toca a tela
e os erros se vão acumulando

andamos nisto há tantos anos demos
tanto de nós e eis tudo o que temos
para mostrar homens de meia-idade
perdidos na sua fúria e confusão
disfarçando fracassos vícios e excesso

de peso em equipamento superfracturado
encenamos monólogos de um acto
sobre o tema da morte sobre
o valor da perseverança sobre
astúcia e estultícia e o derradeiro

sobre beleza e juventude e possíveis
substitutos os mínimos necessários
à sobrevivência pois a alegria
veio e já partiu as naus carregadas
de especiarias em que traficávamos

toda a esperança soçobraram a pique
e circunspectos fazemos o inventário
das artimanhas que ficaram hesitamos
se temos os meios de ainda ir a jogo talvez
se o capitão nos escolher se parar de chover

Pedro Moreira Mestre

Sexta-feira 22 de Junho: Carta de Antecipação


daqui a quinhentos anos / a quem interessará / uma chaminé solitária na cordilheira? / um estreito onde já não passa um gânglio / uma toca onde já não entra um barco? / uma abelha a aterrar numa corola sem pólen? / uma formiga que se move com três patas? / uma ovelha rapada contra o inverno? / uma mulher extinta na boca da noite? / uma criança exilada da infância? // daqui a quinhentos anos / tu que me estás a ler / daqui a quinhentos anos / interessar-te-á o que eu li há quinhentos anos? / interessar-te-á o que eu li com quinhentos anos? // deixou a carta / ainda aberta sobre a mesa / de despedida

Álvaro Seiça

Ao Disfarce das Mulheres


Vens debalde, oh bellissima perjura, 
C'o lindo rosto em lagrimas banhado: 
Já fui por ti mil vezes enganado, 
E sempre me affectaste essa ternura. 

Esse alvo peito, que he de neve pura, 
Mas de aço, e fino bronze temperado, 
Encobre hum coração refalseado, 
Hum coração de viva rocha dura. 

Em vão trabalhas, se enganar-me queres, 
Vejo correr com animo sereno 
Esse pranto em que fundas teus poderes: 

Mal inventado ardil: ardil pequeno:
Tu mesma me ensinaste, que as mulheres
Misturão com as lagrimas veneno.

Nicolau Tolentino de Almeida

O Branco, o Negro e o Mulato Racista


Num mundo de cores e matizes
Onde o branco e o negro compartilham histórias
Surge um mulato, entre esses dois universos
Carregando em si misturas e memórias

O branco, símbolo da luz, mas às vezes cego
Pela própria claridade que o envolve e seduz
O negro, profundo como a noite estrelada
Resistente e resiliente, pelo passado, lapidado

Mas o mulato, ah, ser de dualidade
Encontra-se perdido em sua própria identidade
Espelho de um racismo invertido
Um coração dividido, por vezes confundido

Ele, que carrega em sua pele o tom do encontro
Da fusão de contos, de lágrimas e de sorrisos
Mas em seu olhar, a sombra do preconceito
Eco de um passado, de um erro antigo, imperfeito

Branco, negro, e mulato entre eles
Três faces da humanidade que não se revela
O racismo, um ferida aberta, que separa
Em vez de unir e celebrar a mistura rara

O mulato racista, paradoxo ambulante
Luta com seus fantasmas, com sua mente hesitante
Negando uma parte de si, em busca de aceitação
Esquece que a beleza está na diversificação

Branco, negro, mulato, todos irmãos
Cada um com as suas lutas, seus sonhos, suas canções
Que o mulato encontre paz na sua cor misturada
E veja que em cada tonalidade, uma jornada é traçada

Num mundo ideal, não haveria cor que separa
Apenas humanos, com suas trajectórias claras
Branco, negro, mulato, unidos na diversidade
Celebrando juntos, o rico mosaico da humanidade

Yud Mauro da Costa

Depois da vida sempre a vida. Tudo é vida em estado diferente.
As injustiças moldam o barro da revolta e dão-lhes formas.
A crueldade incendia as casas e as mentes. Todos os corações.
Afinal, ainda vivemos um estádio elementar de desenvolvimento.
Passou a ter mais letras a palavra desespero. O trevo de cinco folhas
há de salvar-nos. Precisamos de descobrir o trevo de cinco folhas.
Depois da vida sempre a vida. Tudo é vida em estado diferente.

Mário Máximo

Cada Frase é uma Arma


cada frase é uma arma
impaciente na noite

um delírio aberto
na raiz da escuridão
onde apressadamente
se bebe o grito inscrito
nos muros da cidade

amanhã
-   disfarçado de claridade -
    o operário não estará tão só
    e tão desabitado da verdade

Artur Lucena

Dentro do Útero


O perigo ronda lá fora

Invisível

Insidioso

Estou fechado em casa,
como dentro de um ovo,
talvez
de um útero

Mas não quero nascer

Quero renascer

João Melo