Era Tudo e a Minha Marginalidade Embriagada ao Som do Jazz.


Foi a metamorfose do mar que se tornou
sangue. Foi a metamorfose da Terra que
se transformou em esperma vulcânico.

Foi a catástrofe da metamorfose animal.
Foi a orgia sexual, onde o mais forte
poderia viajar à lua com 50% de desconto.

Era a desigualdade. Eram seres que abortavam pênis
deformados. Era o ódio.

E a palavra amor era dita com os dentes
rangendo, produzindo um ruído cruel.

Era o fim do mundo, era a morte da
honestidade e ouviam-se convites sexuais no ar.

Entretanto, havia seres independentes
que resistiam bebendo e era tudo
e a minha marginalidade
embriagada ao som do jazz num quarto
velho onde a joint fazia com que o ar se
tornasse espesso.

João Carlos Raposo Nunes

Cigano (Fado)


Na raia de Espanha, nas sombras da noite
Passava um cigano no seu alazão
O vento brandia seu nórdico açoite
E as folhas rangiam, caídas no chão

E já embrenhado no Alto Alentejo
Nas sombras da noite, tingidas de breu
Nem mais uma praga, nem mais um desejo
Aos ecos distantes o pobre gemeu

Não há maior desengano
Nem vida que dê mais pena
Do que a vida dum cigano
Atravessar a fronteira
Para ser atravessado
Por uma bala certeira
E tudo porque o destino
Só fez dele um peregrino
Companheiro do luar
Um pobre judeu errante
Que não tem pátria nem lar

E o contrabandista temido e valente
Voltava de Espanha no seu alazão
Um tiro certeiro, um braço dormente
E um rasto de sangue marcado no chão.

Frederico de Brito / Vasco de Macedo

E se Tudo Isto não Fosse Bem Assim?


E se tudo isto não fosse bem assim?

Se não fossem os riachos aquilo que julgamos ser;
Corpos de água em movimento…

E se a brancura fosse apenas a ausência de cor e o silêncio
(que de facto não existe)
Nada mais fosse que a espera do regresso da tua voz…
E se morrer, meu amor, fosse somente o terror de te sentir distante?

Mas, tudo é de facto bem assim; vivo de facto…
Quando te vejo chegar, ao longe, lá mais adiante,

Manuel Neto dos Santos

Fim


Falei dos frutos
e o pomar que não havia
estremeceu.

João Aragão

Postos Estão, Frente a Frente


Postos estão, frente a frente,
Os dois valerosos campos:
Um é do Rei Maluco,
Outro de Sebastião
    O lusitano.

Moço animoso e valente,
Robusto, determinado,
Ainda que de pouca experiencia
E não bem aconselhado
    O lusitano.

Quando vê mouros sem conta
A sua hoste cercando,
Que p'ra cada um dos seus
Mais de dezoito tocando.

Ardendo em fogo seu peito,
Furioso por pôr-lhe as mãos,
Pensa que todos são nada
Manda à peleja deitar bando
O lusitano.

Brada que envistam os mouros
E o exercito contrario,
Já se vão aproximando
— A elles (diz) Santiago
    O lusitano.

Dispara a artilheria,
A nossa mal disparando,
Chovem balas, chovem mortes,
Setas e fuzilaria.

Puxam d'arma branca os mouros
E fogem em debandada,
Os aventureiros victoria
Pregoam com grande applauso,

Que mataram o Maluco
E o levára o diabo,
Pois junto á sua liteira
O passaram com um balazio.

E na moura artilheria
Duas bandeiras ganharam,
Com victoria tão pujante,
Que mais parecia milagre.

Porém, por nossos peccados,
Pouco a tivemos gosado,
Que em soccorro á rectaguarda
A dianteira ha parado.

Que já por todos os lados
É vanguarda nosso campo,
E com o sangue dos mortos
Está feito um grande lago.

Percorreu-o todo o bom Rei,
Dando mortes mui galhardo,
Em sangue tingida a espada,
Rota a lança e sem cavallo.

Que o seu, traspassando o peito,
Já não póde dar um passo;
Pede a Jorge d'Albuquerque
Lhe dê seu russo rodado.

Dá-lh'o de boa vontade
E o Rei cavalga d'um salto,
Vê-o o Rei como jaz
De costas, quase expirando.

Mais lhe diz que se salve,
Que é tudo despedaçado,
E o Rei investe com os mouros,
Aos mouros Sebastião
    O lusitano.

Busca a morte dando mortes,
Busca a morte Sebastião
    O lusitano,
Dizendo: «Agora é a hora
Que uma bella morte toda a vida honra»

Miguel D'Andrada

Secura


Tenho sede
e a praia não tem água.

Já nem é praia.

É um deserto
desde que os teus gestos quedaram
e o mar dos teus braços secou.

Miguel Leitão

Desenhos para Pessoa

 

Fernando Hilário


Admirável mundo ovo
tudo casca
nada de novo

Carlos La Terza