Miligrama
Só alguns ínfimos 1,7%
dos cidadãos inquiridos
admitem ter conseguido
achar coração nas tripas.
Vasco Oliveira
Amar ou Odiar
Amar ou odiar: ou tudo ou nada!
O meio termo é que não pode ser
A alma tem d’estar sobressaltada
P’ra o nosso barro se sentir viver.
Não é uma cruz a que não for pesada,
Metade dum prazer não é um prazer;
E quem quiser a alma sossegada
Fuja do mundo e deixe-se morrer.
Vive-se tanto mais quanto se sente;
Todo o valor está no que sofremos…
Que nenhum homem seja indiferente!
Amemos muito, como odiamos já:
A verdade está sempre nos extremos,
Porque é no sentimento que ela está.
Fausto Guedes Teixeira
Derrota
resta-nos ao menos a alegria das pequenas
virtudes a inflexão casta nos bons-dias
um perdão desnecessário e desapego
fingido quando a bola toca a tela
e os erros se vão acumulando
andamos nisto há tantos anos demos
tanto de nós e eis tudo o que temos
para mostrar homens de meia-idade
perdidos na sua fúria e confusão
disfarçando fracassos vícios e excesso
de peso em equipamento superfracturado
encenamos monólogos de um acto
sobre o tema da morte sobre
o valor da perseverança sobre
astúcia e estultícia e o derradeiro
sobre beleza e juventude e possíveis
substitutos os mínimos necessários
à sobrevivência pois a alegria
veio e já partiu as naus carregadas
de especiarias em que traficávamos
toda a esperança soçobraram a pique
e circunspectos fazemos o inventário
das artimanhas que ficaram hesitamos
se temos os meios de ainda ir a jogo talvez
se o capitão nos escolher se parar de chover
Pedro Moreira Mestre
Sexta-feira 22 de Junho: Carta de Antecipação
Álvaro Seiça
Ao Disfarce das Mulheres
Vens debalde, oh bellissima perjura,
C'o lindo rosto em lagrimas banhado:
Já fui por ti mil vezes enganado,
E sempre me affectaste essa ternura.
Esse alvo peito, que he de neve pura,
Mas de aço, e fino bronze temperado,
Encobre hum coração refalseado,
Hum coração de viva rocha dura.
Em vão trabalhas, se enganar-me queres,
Vejo correr com animo sereno
Esse pranto em que fundas teus poderes:
Mal inventado ardil: ardil pequeno:
Tu mesma me ensinaste, que as mulheres
Misturão com as lagrimas veneno.
Nicolau Tolentino de Almeida
O Branco, o Negro e o Mulato Racista
Num mundo de cores e matizes
Onde o branco e o negro compartilham histórias
Surge um mulato, entre esses dois universos
Carregando em si misturas e memórias
O branco, símbolo da luz, mas às vezes cego
Pela própria claridade que o envolve e seduz
O negro, profundo como a noite estrelada
Resistente e resiliente, pelo passado, lapidado
Mas o mulato, ah, ser de dualidade
Encontra-se perdido em sua própria identidade
Espelho de um racismo invertido
Um coração dividido, por vezes confundido
Ele, que carrega em sua pele o tom do encontro
Da fusão de contos, de lágrimas e de sorrisos
Mas em seu olhar, a sombra do preconceito
Eco de um passado, de um erro antigo, imperfeito
Branco, negro, e mulato entre eles
Três faces da humanidade que não se revela
O racismo, um ferida aberta, que separa
Em vez de unir e celebrar a mistura rara
O mulato racista, paradoxo ambulante
Luta com seus fantasmas, com sua mente hesitante
Negando uma parte de si, em busca de aceitação
Esquece que a beleza está na diversificação
Branco, negro, mulato, todos irmãos
Cada um com as suas lutas, seus sonhos, suas canções
Que o mulato encontre paz na sua cor misturada
E veja que em cada tonalidade, uma jornada é traçada
Num mundo ideal, não haveria cor que separa
Apenas humanos, com suas trajectórias claras
Branco, negro, mulato, unidos na diversidade
Celebrando juntos, o rico mosaico da humanidade
Yud Mauro da Costa
Subscrever:
Comentários (Atom)
