Deus, eu só desejo ser um poema
O tempo, a luz, a poesia
existem desde antes de nascermos
e continuarão a existir depois da nossa morte
- enquanto espécie.
(a finitude desses conceitos é uma ideia
puramente antropocêntrica.)
O infinito é essencialmente inalcançável
assim como o inconsciente e o silêncio
assim como o significado.
Báw Pernambuco
Mandinga de Escravo da Época Colonial
Se salvem os mestres que ensinam a Capoeira,
Com arte e técnica para que vivos por Deus
Com o corpo em jogo, da vadiação e da brincadeira
Sermos peregrinos, aprendizes nas rodas e nos céus
Onde vibra o axé, com a ginga da pertença,
Na liberdade e na destreza da cultura-mundo
Nos fundamentos do actvismo da diferênça,
Pela experiência da viagem e amor profundo
Consumado em êxtase nos caminhos totais
Do fértil movimento planetário de origem africana,
Consagramos as expressões físicas e mentais
De sermos jogadores e camaradas em raiz humana
Capoeira, riqueza dos povos e poder cultural,
Arte e mandinga de escravo da época colonial.
Graduado Mutante
Infância
e banham-se no mar dos seus longos sonhos
a praia e o mar das crianças não têm fronteiras
e por isso todas as praias são iluminadas
e todos os mares têm manchas verdes
mas muitas vezes as crianças crescem
sem voltar à praia e sem voltar ao mar.
Fernando Sylvan
Era Tudo e a Minha Marginalidade Embriagada ao Som do Jazz.
Foi a metamorfose do mar que se tornou sangue.
Foi a metamorfose da Terra
que se transformou em esperma vulcânico.
Foi a catástrofe da metamorfose animal.
Foi a orgia sexual, onde o mais forte
poderia viajar à lua com 50% de desconto.
Era a desigualdade.
Foi a catástrofe da metamorfose animal.
Foi a orgia sexual, onde o mais forte
poderia viajar à lua com 50% de desconto.
Era a desigualdade.
Eram seres que abortavam pênis deformados.
Era o ódio.
E a palavra amor era dita com os dentes
rangendo, produzindo um ruído cruel.
Era o fim do mundo, era a morte da
honestidade e ouviam-se convites sexuais no ar.
Entretanto, havia seres independentes
que resistiam bebendo
E a palavra amor era dita com os dentes
rangendo, produzindo um ruído cruel.
Era o fim do mundo, era a morte da
honestidade e ouviam-se convites sexuais no ar.
Entretanto, havia seres independentes
que resistiam bebendo
e era tudo e a minha marginalidade
embriagada ao som do jazz num quarto velho
embriagada ao som do jazz num quarto velho
onde a joint fazia com que o ar se tornasse espesso.
João Carlos Raposo Nunes
Cigano (Fado)
Na raia de Espanha, nas sombras da noite
Passava um cigano no seu alazão
O vento brandia seu nórdico açoite
E as folhas rangiam, caídas no chão
E já embrenhado no Alto Alentejo
Nas sombras da noite, tingidas de breu
Nem mais uma praga, nem mais um desejo
Aos ecos distantes o pobre gemeu
Não há maior desengano
Nem vida que dê mais pena
Do que a vida dum cigano
Atravessar a fronteira
Para ser atravessado
Por uma bala certeira
E tudo porque o destino
Só fez dele um peregrino
Companheiro do luar
Um pobre judeu errante
Que não tem pátria nem lar
E o contrabandista temido e valente
Voltava de Espanha no seu alazão
Um tiro certeiro, um braço dormente
E um rasto de sangue marcado no chão.
Frederico de Brito / Vasco de Macedo
Nas sombras da noite, tingidas de breu
Nem mais uma praga, nem mais um desejo
Aos ecos distantes o pobre gemeu
Não há maior desengano
Nem vida que dê mais pena
Do que a vida dum cigano
Atravessar a fronteira
Para ser atravessado
Por uma bala certeira
E tudo porque o destino
Só fez dele um peregrino
Companheiro do luar
Um pobre judeu errante
Que não tem pátria nem lar
E o contrabandista temido e valente
Voltava de Espanha no seu alazão
Um tiro certeiro, um braço dormente
E um rasto de sangue marcado no chão.
Frederico de Brito / Vasco de Macedo
E se Tudo Isto não Fosse Bem Assim?
E se tudo isto não fosse bem assim?
Se não fossem os riachos aquilo que julgamos ser;
Corpos de água em movimento…
E se a brancura fosse apenas a ausência de cor e o silêncio
(que de facto não existe)
Nada mais fosse que a espera do regresso da tua voz…
E se morrer, meu amor, fosse somente o terror de te sentir distante?
Mas, tudo é de facto bem assim; vivo de facto…
Quando te vejo chegar, ao longe, lá mais adiante,
Manuel Neto dos Santos
Postos Estão, Frente a Frente
Postos estão, frente a frente,
Os dois valerosos campos:
Um é do Rei Maluco,
Outro de Sebastião
O lusitano.
Moço animoso e valente,
Robusto, determinado,
Ainda que de pouca experiencia
E não bem aconselhado
O lusitano.
Quando vê mouros sem conta
A sua hoste cercando,
Que p'ra cada um dos seus
Mais de dezoito tocando.
Ardendo em fogo seu peito,
Furioso por pôr-lhe as mãos,
Pensa que todos são nada
Manda à peleja deitar bando
O lusitano.
Brada que envistam os mouros
E o exercito contrario,
Já se vão aproximando
— A elles (diz) Santiago
O lusitano.
Dispara a artilheria,
A nossa mal disparando,
Chovem balas, chovem mortes,
Setas e fuzilaria.
Puxam d'arma branca os mouros
E fogem em debandada,
Os aventureiros victoria
Pregoam com grande applauso,
Que mataram o Maluco
E o levára o diabo,
Pois junto á sua liteira
O passaram com um balazio.
E na moura artilheria
Duas bandeiras ganharam,
Com victoria tão pujante,
Que mais parecia milagre.
Porém, por nossos peccados,
Pouco a tivemos gosado,
Que em soccorro á rectaguarda
A dianteira ha parado.
Que já por todos os lados
É vanguarda nosso campo,
E com o sangue dos mortos
Está feito um grande lago.
Percorreu-o todo o bom Rei,
Dando mortes mui galhardo,
Em sangue tingida a espada,
Rota a lança e sem cavallo.
Que o seu, traspassando o peito,
Já não póde dar um passo;
Pede a Jorge d'Albuquerque
Lhe dê seu russo rodado.
Dá-lh'o de boa vontade
E o Rei cavalga d'um salto,
Vê-o o Rei como jaz
De costas, quase expirando.
Mais lhe diz que se salve,
Que é tudo despedaçado,
E o Rei investe com os mouros,
Aos mouros Sebastião
O lusitano.
Busca a morte dando mortes,
Busca a morte Sebastião
O lusitano,
Dizendo: «Agora é a hora
Que uma bella morte toda a vida honra»
Um é do Rei Maluco,
Outro de Sebastião
O lusitano.
Moço animoso e valente,
Robusto, determinado,
Ainda que de pouca experiencia
E não bem aconselhado
O lusitano.
Quando vê mouros sem conta
A sua hoste cercando,
Que p'ra cada um dos seus
Mais de dezoito tocando.
Ardendo em fogo seu peito,
Furioso por pôr-lhe as mãos,
Pensa que todos são nada
Manda à peleja deitar bando
O lusitano.
Brada que envistam os mouros
E o exercito contrario,
Já se vão aproximando
— A elles (diz) Santiago
O lusitano.
Dispara a artilheria,
A nossa mal disparando,
Chovem balas, chovem mortes,
Setas e fuzilaria.
Puxam d'arma branca os mouros
E fogem em debandada,
Os aventureiros victoria
Pregoam com grande applauso,
Que mataram o Maluco
E o levára o diabo,
Pois junto á sua liteira
O passaram com um balazio.
E na moura artilheria
Duas bandeiras ganharam,
Com victoria tão pujante,
Que mais parecia milagre.
Porém, por nossos peccados,
Pouco a tivemos gosado,
Que em soccorro á rectaguarda
A dianteira ha parado.
Que já por todos os lados
É vanguarda nosso campo,
E com o sangue dos mortos
Está feito um grande lago.
Percorreu-o todo o bom Rei,
Dando mortes mui galhardo,
Em sangue tingida a espada,
Rota a lança e sem cavallo.
Que o seu, traspassando o peito,
Já não póde dar um passo;
Pede a Jorge d'Albuquerque
Lhe dê seu russo rodado.
Dá-lh'o de boa vontade
E o Rei cavalga d'um salto,
Vê-o o Rei como jaz
De costas, quase expirando.
Mais lhe diz que se salve,
Que é tudo despedaçado,
E o Rei investe com os mouros,
Aos mouros Sebastião
O lusitano.
Busca a morte dando mortes,
Busca a morte Sebastião
O lusitano,
Dizendo: «Agora é a hora
Que uma bella morte toda a vida honra»
Miguel D'Andrada
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