Afastei-me


Afastei-me
Deixando-me empurrar
Para as margens, para trás
Afastei-me
Empurrado pela força
Irracional
Da sociedade vertical
Por cima
Dos cadaveres vivos
Afastados no empurron
Abafados sob o peso
Da estrutura social
Perfeita
Afastei-me
Deixar já de empurrar

Francisco Xabier

A Fábrica


Sempre que fazia asneiras
alguém dizia Porta-te bem senão vais para a fábrica
Quando passavam as trabalhadoras da
fábrica pela rua no final do dia
descia as calças e mostrava-lhes o rabo
Anos mais tarde as fábricas começaram
a falir e a ser substituídas por
lojas de tudo e nada
de variedades
No entanto, o aviso à canalhada continua
a ser o mesmo
Porta-te bem senão vais acabar a trabalhar na loja!

Filipa da Rocha Nunes

Tudo Cansa


Tudo na verdade cansa oh meus bons amigos
E o que dura de mais por si próprio se esmorece;
O amor a pouco e pouco evolui e se esquece
Cansa-se cada um de si mesmo p'ra consigo...

Cansa a actividade como cansa a rotina
Mas igualmente cansa o prolongado pousio
Da alma em qualquer mal que recordo e desfio
- Fricção que não acalma na mais áspera esquina...

E é assim, cansado sempre que na variedade
Do cansaço se acha descanso e satisfação;
Como alguém que muda o peso de mão em mão
Como alguém que de manhã imagina a tarde

Tudo cansa pois, pelo menos assim parece
- E o próprio descanso se for demais se aborrece.

Cristino Cortes

Estação


Um comboio que partisse
Sem sair da estação
No lado esquerdo da linha
Transporte dum coração.

Um comboio que chegasse
Na ânsia de não saber
Qual janela escolhida
No trânsito desta mulher.

Afinal sombra, um modelo
Visto apenas de passagem
O comboio não se deteve
Não era minha viagem.

Afinal pó de um momento
Registado num poema
Se o comboio esteve aqui
Era o mesmo do cinema.

José do Carmo Francisco

Divisa


A l'atzar agraeixo tres dons:
haver nascut dona,
de classe baixa
i nació oprimida.
I el tèrbol atzur
de ser tres voltes rebel.

Maria Mercè Marçal

Al Final


Si he de decir algo,
diré que no sólo estuve,
que di lo mejor de mí
y busqué el nirvana donde pude.
Anduve mucho,
a veces horas,
a veces frené y me detuve
a contemplar despacio formas mil entre
las nubes.
Fui más vil de lo que quise,
lo sepan los jueces.
Sometimos sin hacer bulling,
no se lo merecen.
Si he decir algo,
diré que no sólo estuve,
que jodí y me jodieron
a partes iguales.
Aprendí de los animales:
si no es tu hermano, no te fíes
y que lo sepan los chavales…
Al final lo que cuenta,
son los pequeños detalles:
las charlas de café,
el césped recién cortao cuando el sol sale
y unas cañitas a fin de mes.
Mi vida es cuesta abajo,
me dejo caer… No hay duda:
Si falla todo, tengo donde volver.

Gata Cattana

No dia 12 caguei um chapéu,
não sei se o hei-de
usar na cabeça ou no cu.
No dia 13 escrevo um poema,
não sei se o hei-de publicar
ou limpar-lhe o cu.
Dá-me a tua opinião
em cu@poema.pt

Elisa Scarpa

Paradoxos


É possível ser bonito sendo feio
E ser feio sendo bonito
É possível ser inteligente não sabendo
E ser ignorante sabendo
É possível ser cego vendo
E ver sendo cego
É possível ser músico não tocando
E tocar não sendo músico
É possível amar não conhecendo
E conhecer não amando
É possível falar sendo mudo
E ser mudo falando
É possível ser surdo ouvindo
E não ouvir não sendo surdo
É possível ser tudo não sendo nada
E nada sendo tudo
É possível existir estando morto
E estar morto existindo
É possível afirmar negando
E negar afirmando
É possível ser Zenão sendo Parménides
E Parménides sendo Zenão
É possível chegar sendo lento
E ser rápido nunca chegando
É possível ser vagaroso em terra
E veloz no mar
É possível ser tartaruga.

Ana Paula Jardim