A Mulher Anteriormente Conhecida Como Catarina


Por ora, sou mulher.
Ainda não esgotei esse filão e gosto
de ser mulher.
Mas um dia serei homem
arco do pé erguido, sólido
pernas de bambu
ossos das ancas e clavículas salientes
entradas grisalhas
olhos fixos em sabe-se-lá-o-quê
com roupa de bom corte
lisa, desirmanada, muito usada
camisa branca aberta acima do esterno
pouco abaixo, o nó largo e lasso
da gravata preta com quatro finas riscas brancas 
        entrecruzadas
outra gravata presa sob a gola do blazer
acabado de sair de uma festa oriental,
plateia e palco da decadência ocidental.

Caminharei para a casa muda
onde não habitará a filha d
a mulher anteriormente conhecida como Catarina
e que, a ser alguma coisa (será?),
gosto de ser.
Caminharei com os meus pés agora de mulher
dentro dos de um homem
dentro de uns oxford imaculados até à sola.
E nunca terei sido homem sendo homem
e não serei mulher e sou mulher
e esta não será uma questão política
porque só minha
e será só minha
porque foi política.

Catarina Santiago Costa

Tanta gente que
apenas atravessa a estrada
Agora a estrada
essa trespassa cidades
planícies vales e montanhas.

Miguel Marques

Molécula para Therapia Magna Sterilisans



Mauro Pinto

Ir
-verbo intransitivo
passar de um lugar
a outro, evoluir
progredir
passar bem
ou mal
acontecer
e, no entanto, basta
acrescentar um -se
e já se está
em vias de
desaparecer
deixar de ser
visível
(fazer) sofrer

Isabel Peixeiro

Miligrama


Só alguns ínfimos 1,7%
dos cidadãos inquiridos
admitem ter conseguido
achar coração nas tripas.

Vasco Oliveira

Amar ou Odiar


Amar ou odiar: ou tudo ou nada!
O meio termo é que não pode ser
A alma tem d’estar sobressaltada
P’ra o nosso barro se sentir viver.

Não é uma cruz a que não for pesada,
Metade dum prazer não é um prazer;
E quem quiser a alma sossegada
Fuja do mundo e deixe-se morrer.

Vive-se tanto mais quanto se sente;
Todo o valor está no que sofremos…
Que nenhum homem seja indiferente!

Amemos muito, como odiamos já:
A verdade está sempre nos extremos,
Porque é no sentimento que ela está.

Fausto Guedes Teixeira

Derrota


resta-nos ao menos a alegria das pequenas
virtudes a inflexão casta nos bons-dias
um perdão desnecessário e desapego
fingido quando a bola toca a tela
e os erros se vão acumulando

andamos nisto há tantos anos demos
tanto de nós e eis tudo o que temos
para mostrar homens de meia-idade
perdidos na sua fúria e confusão
disfarçando fracassos vícios e excesso

de peso em equipamento superfracturado
encenamos monólogos de um acto
sobre o tema da morte sobre
o valor da perseverança sobre
astúcia e estultícia e o derradeiro

sobre beleza e juventude e possíveis
substitutos os mínimos necessários
à sobrevivência pois a alegria
veio e já partiu as naus carregadas
de especiarias em que traficávamos

toda a esperança soçobraram a pique
e circunspectos fazemos o inventário
das artimanhas que ficaram hesitamos
se temos os meios de ainda ir a jogo talvez
se o capitão nos escolher se parar de chover

Pedro Moreira Mestre

Sexta-feira 22 de Junho: Carta de Antecipação


daqui a quinhentos anos / a quem interessará / uma chaminé solitária na cordilheira? / um estreito onde já não passa um gânglio / uma toca onde já não entra um barco? / uma abelha a aterrar numa corola sem pólen? / uma formiga que se move com três patas? / uma ovelha rapada contra o inverno? / uma mulher extinta na boca da noite? / uma criança exilada da infância? // daqui a quinhentos anos / tu que me estás a ler / daqui a quinhentos anos / interessar-te-á o que eu li há quinhentos anos? / interessar-te-á o que eu li com quinhentos anos? // deixou a carta / ainda aberta sobre a mesa / de despedida

Álvaro Seiça