Dissinergia


Eu

Querias sanar a tua agonia
A minha urgência não permitia
Fintava o tempo, cortava o pavio
Teu punho fechado continuava vazio

Querias mostrar-me o frio rebelde
Que te eriçava o pelo e arrepiava a pele
Meu corpo ardia sempre mais alto
Queimava por dentro, deixava-me farto

Querias selar a noite e o dia
Com mágoa, com ganas, sem cortesia
Arrancavas promessas no cume do calor
Poemas orgásmicos, tesouros sem valor

Querias estrelas, aleluias, oxalás
Que eu partilhasse as minhas coisas más
O lençol suado, o meu cheiro guardado
Tudo o que é mentira fora desse quarto

Tu

Ardor com sabor de sal
Dor com cor de ferro
Ventania que rouba o ar
Fogueira com cheiro negro

Frio que queima
Seduz
Teima

Clarão que abafa
Sufoca
Mata

Ergue-me sem me tocar
Derruba-me, sim!
Quisesse eu evitar
Pudesse eu culpar-te por mim

Laura Vasques Sousa

Bê-a-Bá

 

Manuel Portela

Romance

 


Gabriel Rui Silva

Poema Sin Tierra 3


¿Quién te dará?
La tierra
Si no son
¿Tus manos?

¿Quién te dará?
La tierra
Si no son
¿Tus brazos?

¿Quién te dará?
La tierra
Si no eres tú
Trabajador del campo
Que siembras
Con sudor
E sangre
El silencio
Que geme en la tierra
¿Tu canto?

¿Quién?

Carlos Pronzato

Dieta de Poeta


À mesa do profeta
o poeta rapa as sementes do génesis
e mudo mastiga o mundo
musas
e erros fritos.

Ah,
a secreta pantagruélica poética refeição
do poeta a lamber os beiços
e depois ainda doces beijos
embrulhados em papel azul celofane.

E ali sentada
mui discreta
ao lado do poeta,
a poetisa come pizza.

Ana Jaqueiro

Computer Poems


Silvestre Pestana

Por Vezes o Abandono


Por vezes o abandono
é tão grande
que nos leva à janela
só para ver
se lá fora
o tempo continua.

Flor Campino

Soneto do Comilão


A invenção mais rica e adorada
Ao vosso relatório aqui ajunto
Foi descobrir-se que o belo presunto
É fazenda p'ra deitar-se na dobrada.

Uma bela e valente caldeirada
Com manteiga de vaca e não com unto,
Olha lá, general, mais esta ajunto,
É invenção por Deus abençoada.

Mãozinhas de carneiro com tomates
Um pato com arroz, lulas, eirozes,
Se é capaz chame a isto disparates.

De beber belo vinho tu só trates,
E escuta-me agora as minhas vozes,
Mata a fome toleirão - gente não mates.

Luís de Araújo