Poema Sin Tierra 3


¿Quién te dará?
La tierra
Si no son
¿Tus manos?

¿Quién te dará?
La tierra
Si no son
¿Tus brazos?

¿Quién te dará?
La tierra
Si no eres tú
Trabajador del campo
Que siembras
Con sudor
E sangre
El silencio
Que geme en la tierra
¿Tu canto?

¿Quién?

Carlos Pronzato

Dieta de Poeta


À mesa do profeta
o poeta rapa as sementes do génesis
e mudo mastiga o mundo
musas
e erros fritos.

Ah,
a secreta pantagruélica poética refeição
do poeta a lamber os beiços
e depois ainda doces beijos
embrulhados em papel azul celofane.

E ali sentada
mui discreta
ao lado do poeta,
a poetisa come pizza.

Ana Jaqueiro

Computer Poems


Silvestre Pestana

Por Vezes o Abandono


Por vezes o abandono
é tão grande
que nos leva à janela
só para ver
se lá fora
o tempo continua.

Flor Campino

Soneto do Comilão


A invenção mais rica e adorada
Ao vosso relatório aqui ajunto
Foi descobrir-se que o belo presunto
É fazenda p'ra deitar-se na dobrada.

Uma bela e valente caldeirada
Com manteiga de vaca e não com unto,
Olha lá, general, mais esta ajunto,
É invenção por Deus abençoada.

Mãozinhas de carneiro com tomates
Um pato com arroz, lulas, eirozes,
Se é capaz chame a isto disparates.

De beber belo vinho tu só trates,
E escuta-me agora as minhas vozes,
Mata a fome toleirão - gente não mates.

Luís de Araújo

Matéria Escura


● pra isso basta se curvar ●
● na beira do poço olhar fixo ●
● la pra baixo na agua escura ●
● admirando os olhos perdidos ●
● entre a agua do poço e os olhos ●
● re-fletidos na escuridão da agua ●
● do poço tudo tão frio entre a agua ●
● do poço e os olhos e o q se curva ●
● turvo demais q tanta vida q tanta ●
● escuridão possam se abismar assim ●
● como se a vida pudesse se perder ●
● entre o encontrar e o não poder ●

Alberto Lins Caldas

Não Há Poema na Cena


Não há poema na cena, a cena é o poema da recusa em não em cena estar.

Em não em cena respirar. Em não em cena. Em não em cena não se está. Nunca se não está, não está. É-se público mesmo quando não se o tem, em não em cena.

Tem uma forma a palavra. Tem dança. A forma. Escreve o teu nome com o corpo, ela dizia no frio do norte. Escreve o teu corpo com o nome que se te dá em cena. Digo eu entre o meio e o meu seio (isto é poética performada).

Mais a sul comem-se os nomes com os corpos. Fiz um sacrifício e nunca mais vou comer um certo bicho, depois de o ter performado. Formou-se dentro de mim a compaixão da não consumação. Não é bem este o sentido mas por lá chega, por outro lado.

A poética é tudo o que fica fora de cena, e eu estou tão cansada de dois anos de poética e três dias de cena. Não é justo, é teimosia, é justo, é dar corpo-poesia. É dar. E pega-se. Pégaso me leve. Eleva! Estou tão cansada de escrever durante dois anos para vos dizer durante três dias, duas horas por dia, para me ouvirem performo-dizer. Sou teimosa e queria ser mula. Só um bocadinho, para não ter de escrever.

Amoral da história:
Há muitos anos fiz vinho quente em cena e embebedei-me com os vapores. O que melhorou em muito a qualidade da minha performance.

Sonia Baptista

2º Andamento /Larghissimo Kr


do emigrado, desertor
das batalhas download obscuras
da tundra da treta do amor
à pátria
amordaça a luz, o saber,
e é mais um T2 T3 a vender
almas suínas na candonga
d'alpercatas e homophones
rebolam bichanados
até ao escorrega
arco-íris do hospício
distúrbios internados
queimados pela sacra
inquisição -
:assassinados na Dinamarca
: despedidas em França
: fuzilados na Naníbia
: decepados no Irão
: apedrejados na Argentina
: esquartejados
marginalizados... o negro
nojo tolerância tuga
em pirueta, as bichas
morrem desamparadas
ficando a sua apolcalíptica
merda poética a estrumar
futuros currais d'escuridão
e a tricha c'est moi?

sou eu, a oculta peste negra
qu'incendeia os cães vestidos
de peles de homens almíscarados
esfumando-se na paisagem
entre deformados loopings
libélulas feridas
ao redor sombras descaídas
no fim da tarde que s'esvai
na tirana linha do horizonte

tanta fruta podre caída no solo
d'esfomeados que tombam
esqueléticos entre as virilhas
dos arcanjos mutilados,
virando costas
ao nascer d'osso do vazio
assombrando o peito

barulhos para ninguém

oculto a tua morte
a morte ocultará a minha vida
como um gás raro, o gene
A25-BIS-DR2 não se encontra
no número atómico 36
nem no espectro das linhas
verdes e amarelas qu'estimulam
a perseverança e a astúcia
Saturno namora Marte
num encarte do correio
e eu quero um Beetle de 52
qu'eu cá sou de pouco brilho
ermo trilho labirintos
debaixo do panamá
transbordam algoritmos
secretos
secretas vidas terão
tornados e nenúfares
após passarem paralém
do seu fim? Ou morrerão ali,
na hora, como nós,
quando nos despedimos
costado voltado à taipa
da morgue em metamorfose
minha doce concubina?

Jorge Aguiar Oliveira