Por Vezes o Abandono


Por vezes o abandono
é tão grande
que nos leva à janela
só para ver
se lá fora
o tempo continua.

Flor Campino

Soneto do Comilão


A invenção mais rica e adorada
Ao vosso relatório aqui ajunto
Foi descobrir-se que o belo presunto
É fazenda p'ra deitar-se na dobrada.

Uma bela e valente caldeirada
Com manteiga de vaca e não com unto,
Olha lá, general, mais esta ajunto,
É invenção por Deus abençoada.

Mãozinhas de carneiro com tomates
Um pato com arroz, lulas, eirozes,
Se é capaz chame a isto disparates.

De beber belo vinho tu só trates,
E escuta-me agora as minhas vozes,
Mata a fome toleirão - gente não mates.

Luís de Araújo

Matéria Escura


● pra isso basta se curvar ●
● na beira do poço olhar fixo ●
● la pra baixo na agua escura ●
● admirando os olhos perdidos ●
● entre a agua do poço e os olhos ●
● re-fletidos na escuridão da agua ●
● do poço tudo tão frio entre a agua ●
● do poço e os olhos e o q se curva ●
● turvo demais q tanta vida q tanta ●
● escuridão possam se abismar assim ●
● como se a vida pudesse se perder ●
● entre o encontrar e o não poder ●

Alberto Lins Caldas

Não Há Poema na Cena


Não há poema na cena, a cena é o poema da recusa em não em cena estar.

Em não em cena respirar. Em não em cena. Em não em cena não se está. Nunca se não está, não está. É-se público mesmo quando não se o tem, em não em cena.

Tem uma forma a palavra. Tem dança. A forma. Escreve o teu nome com o corpo, ela dizia no frio do norte. Escreve o teu corpo com o nome que se te dá em cena. Digo eu entre o meio e o meu seio (isto é poética performada).

Mais a sul comem-se os nomes com os corpos. Fiz um sacrifício e nunca mais vou comer um certo bicho, depois de o ter performado. Formou-se dentro de mim a compaixão da não consumação. Não é bem este o sentido mas por lá chega, por outro lado.

A poética é tudo o que fica fora de cena, e eu estou tão cansada de dois anos de poética e três dias de cena. Não é justo, é teimosia, é justo, é dar corpo-poesia. É dar. E pega-se. Pégaso me leve. Eleva! Estou tão cansada de escrever durante dois anos para vos dizer durante três dias, duas horas por dia, para me ouvirem performo-dizer. Sou teimosa e queria ser mula. Só um bocadinho, para não ter de escrever.

Amoral da história:
Há muitos anos fiz vinho quente em cena e embebedei-me com os vapores. O que melhorou em muito a qualidade da minha performance.

Sonia Baptista

2º Andamento /Larghissimo Kr


do emigrado, desertor
das batalhas download obscuras
da tundra da treta do amor
à pátria
amordaça a luz, o saber,
e é mais um T2 T3 a vender
almas suínas na candonga
d'alpercatas e homophones
rebolam bichanados
até ao escorrega
arco-íris do hospício
distúrbios internados
queimados pela sacra
inquisição -
:assassinados na Dinamarca
: despedidas em França
: fuzilados na Naníbia
: decepados no Irão
: apedrejados na Argentina
: esquartejados
marginalizados... o negro
nojo tolerância tuga
em pirueta, as bichas
morrem desamparadas
ficando a sua apolcalíptica
merda poética a estrumar
futuros currais d'escuridão
e a tricha c'est moi?

sou eu, a oculta peste negra
qu'incendeia os cães vestidos
de peles de homens almíscarados
esfumando-se na paisagem
entre deformados loopings
libélulas feridas
ao redor sombras descaídas
no fim da tarde que s'esvai
na tirana linha do horizonte

tanta fruta podre caída no solo
d'esfomeados que tombam
esqueléticos entre as virilhas
dos arcanjos mutilados,
virando costas
ao nascer d'osso do vazio
assombrando o peito

barulhos para ninguém

oculto a tua morte
a morte ocultará a minha vida
como um gás raro, o gene
A25-BIS-DR2 não se encontra
no número atómico 36
nem no espectro das linhas
verdes e amarelas qu'estimulam
a perseverança e a astúcia
Saturno namora Marte
num encarte do correio
e eu quero um Beetle de 52
qu'eu cá sou de pouco brilho
ermo trilho labirintos
debaixo do panamá
transbordam algoritmos
secretos
secretas vidas terão
tornados e nenúfares
após passarem paralém
do seu fim? Ou morrerão ali,
na hora, como nós,
quando nos despedimos
costado voltado à taipa
da morgue em metamorfose
minha doce concubina?

Jorge Aguiar Oliveira

As Nozes


Nuna limpei armas em tempo de guerra
E só hei-de pagar uma dívida à terra
Como os dias de tudo são vésperas de nada
Eu meti-me ao caminho de muito amar a estrada
                    Deus é bom e o Diabo também não é mau
                    Quem nunca se aventurou
                    Nuca perdeu nem ganhou
                    
Quantos mais são os mouros melhor é a guerra
Não chegamos ao Céu sem os ossos da terra
Quem se deitar à sorte aprende uma arte
Que Deus dá-nos as nozes mas não é Ele quem as parte
                    Se está vivo quem foge depressa se agarra
                    E se outro mundo é de quem o ganha
                    Este é de quem os apanha

Filho és pai serás e assim acharás
Por isso eu parti cedo sem olhar para trás
Quero-me livre de fome de guerra
Livre de peste e de bispo na terra
                    Deus é bom e o Diabo também não é mau
                    Quem nunca se aventurou
                    Nuca perdeu nem ganhou

Cada um enterra o se pai como pode
Quem já perdeu tudo já ninguém lhe acode
As vozes são sempre muito mais que as gentes
Porque Deus só dá nozes a quem já não tem dentes
                    Se está vivo quem foge depressa se agarra
                    E se outro mundo é de quem o ganha
                    Este é de quem os apanha

Clara Pinto Correia

Cena:


o espaço público com mediação e investimento
a organização das actividades
a sua rigorosa gestão cronológica
os preceitos, limites e obrigações
a necessidade e a bonomia do acatamento
a ilusão do controlo
a ilusão dos papéis desempenhados
a ilusão do alcance da vontade

: assim crescem os dias estruturados
como corpo espraiado a resolver-se horizonte
sempre um passo demasiado aquém
o atraso com a problematização ultra-teórica
o encanto com a valsa retórica
o vocabulário, prenhe de conceitos e noções estanques
os jogos criados em busca de alheamento

: assim crescemos dias fortificados
jaula e armadilha e as costas já pesadas de manhã
e um halo vermelho seu hálito pulsante sob o céu
assim, passo a passo,
serpenteando
a carne dissoluta tornada indústria

João Silveira

A Mulher Anteriormente Conhecida Como Catarina


Por ora, sou mulher.
Ainda não esgotei esse filão e gosto
de ser mulher.
Mas um dia serei homem
arco do pé erguido, sólido
pernas de bambu
ossos das ancas e clavículas salientes
entradas grisalhas
olhos fixos em sabe-se-lá-o-quê
com roupa de bom corte
lisa, desirmanada, muito usada
camisa branca aberta acima do esterno
pouco abaixo, o nó largo e lasso
da gravata preta com quatro finas riscas brancas 
        entrecruzadas
outra gravata presa sob a gola do blazer
acabado de sair de uma festa oriental,
plateia e palco da decadência ocidental.

Caminharei para a casa muda
onde não habitará a filha d
a mulher anteriormente conhecida como Catarina
e que, a ser alguma coisa (será?),
gosto de ser.
Caminharei com os meus pés agora de mulher
dentro dos de um homem
dentro de uns oxford imaculados até à sola.
E nunca terei sido homem sendo homem
e não serei mulher e sou mulher
e esta não será uma questão política
porque só minha
e será só minha
porque foi política.

Catarina Santiago Costa